quarta-feira, 16 de junho de 2010

ARTIGO – CANTIGAS LÍRICAS

Por: Raíra Oliveira Silva

Como principal objetivo desse artigo, busco analisar a influência do movimento literário Trovadorismo, comparando o poema de autoria de Dom Dinis, Un tal ome sei eu, ai bem-talhada, junto a canção composta por Chico Buarque e Francis Hime, interpretada por Elis Regina, Atrás da porta. Apesar dos poetas pertencerem a épocas e movimentos diferentes, ambas podem ser atribuídas ao mesmo estilo literário: Cantigas líricas do Trovadorismo.
A primeira Época Medieval, mais conhecida como Trovadorismo, “iniciou-se no século XII, por volta de 1189 (ou 1198) estendendo-se até o século XV, no ano de 1418” (NICOLA, 2000). Os textos poéticos pertencentes a essa geração eram acompanhados por instrumentos musicais e, quase sempre, cantados em coro por pessoas de classe social baixa, pois apesar de muitas vezes os próprios jograis, como eram conhecidas as pessoas que musicalizavam os poemas, quem compunha em grande parte as obras poéticas eram os Nobres, como alguns Reis, tais como: D. Dinis, D. Afonso X e D. Sancho I.
As poesias trovadorescas tinham duas classificações: as Cantigas líricas, compostas pelas Cantigas de Amor e Amigo; e as Cantigas Satíricas, formadas pelas Cantigas de Escárnio e Maldizer. Tendo destaque na pesquisa apenas as Cantigas líricas, devido os traços presentes do movimento trovadoresco na canção.
As cantigas de amor têm origem na Provença (na idade média era chamada de Proença), no sul da França, entre o séculos XI e XII. A arte dos trovadores e o “amor cortês”, descritas nas obras literárias, influenciou as cantigas de amor em Portugal. O ambiente escolhido pelos trovadores, era sempre o palácio. Esses textos literários têm como característica o eu-lírico masculino e o amor impossível, tendo como principal essência o sofrimento amoroso dele perante uma mulher idealizada e distante.
As catingas de amigo têm origem na Península Ibérica. Essas cantigas surgiram do sentimento popular e são mais antigas do que as catingas de amor, entretanto não eram escritas e registradas, sendo oficializadas apenas depois do desenvolvimento da arte poética e a entrada das cantigas provençais. O ambiente dessas cantigas é rural ou urbano. As principais características são: predomínio da musicalidade, pouca subjetividade e o amor natural, possível e espontâneo; o eu-lírico sempre feminino, porém quem compunha as cantigas eram homens, pois as mulheres dessa época não podiam ser alfabetizadas;
Escolhido como autor do poema a ser analisado nessa pesquisa, D. Dinis, o mais famoso trovador de Portugal, assumiu o trono de rei aos dezoito anos de idade, sendo então, o sexto rei, governando entre 1261 e 1325. Apesar da sua época ser conturbada com guerra e rebeliões, D. Dinis procurava desenvolver a cultura no seu país, onde construiu a primeira universidade portuguesa, em Lisboa no ano de 1290. O rei era um excelente poeta e suas obras registradas chegam a cento e trinta e oito cantigas, sendo a maioria cantigas de amor. Como uma de suas composições o poema Un tal ome sei eu, ai ben-talhada, segue abaixo para ser analisado:

1 - Un tal ome sei eu, ai ben-talhada,
2 - que por vós ten a sa morte chegada;
3 - vedes quen é seed'en nembrada:
4 - eu, mia dona.

5 - Un tal ome sei eu que preto sente
6 - de si morte chegada certamente;
7 - vedes quen é e venha-vos em mente:
8 - eu, mia dona.

9 - Un tal ome sei eu: aquest'oíde
10 - que por vos morr'e ve-lo en partide;
11 - vedes quen é e non xe vos obride;
12 - eu, mia dona.

O poema acima mencionado, tem como classificação Cantiga de amor, pois como pude perceber o “eu-lírico” do texto poético é masculino, de acordo com o verso 1 “Un tal ome sei eu, ai ben-talhada (...)". O “eu-lírico” sofre, pois está apaixonado e aflito com tal sentimento e o seu amor não é correspondido, como está descrito nos versos 10 e 11 “(...) Un tal ome sei eu: aquest'oide que por vos morr'e ve-lo em partide;".
Como pode-se notar no verso 10 o amor que o poeta sente pela amada, se torna tão obcessivo que chega a ponto de colocar sua vida à disposição da morte por ela "(...) que por vos morr'e (...)", transformando-se em uma verdadeira adoração a sua musa. E mesmo que a "Dona", conhecida como uma de suas denominações, a mulher inatingível, não sabia que a cantiga era dedicada a ela, o eu-lírico enfatiza nos versos 3 e 4 "(...) vedes quen é seed'en nembrada; eu, mia dona (...)", que ela nunca o esqueça, havendo uma contradição entre o poema e a realidade daquela época, pois o nome da mulher nunca poderia ser identificado.
A posição típica do eu-lírico, descrito no poema, ajoelhado, jurando servidão à mulher amada pode ser percebida na música contemporânea, Atrás da porta, com uma inversão por completo do eu-lírico masculino para o feminino, podendo ser classificado como Cantiga de Amigo, mostrado nos versos 7 e 8, além dos versos 19 e 20 :

1 - Quando olhaste bem nos olhos meus2 - E o teu olhar era de adeus3 - Juro que não acreditei4 - Eu te estranhei5 - Me debrucei6 - Sobre teu corpo e duvidei7 - E me arrastei e te arranhei8 - E me agarrei nos teus cabelos9 - No teu peito (Nos teus pelos)10 - Teu pijama11 - Nos teus pés12 - Ao pé da cama13 - Sem carinho, sem coberta14 - No tapete atrás da porta15 - Reclamei baixinho16 - Dei pra maldizer o nosso lar17 - Pra sujar teu nome, te humilhar18 - E me vingar a qualquer preço19 - Te adorando pelo avesso20 - Pra mostrar que inda sou tua21 - Só pra provar que inda sou tua...
Essa canção foi composta por Chico Buarque e Francis Hime. Chico Buarque é músico, dramaturgo e escritor brasileiro. Iniciou sua carreira na década de 1960 e seu primeiro prêmio foi em 1966, quando ganhou o Festival de Música Brasileira com a canção A Banda. Seu mais recente prêmio foi em 2004 com o livro Budapeste, ganhando o Prêmio Jabuti.
Já, Francis Hime é considerado um dos melhores representantes da geração de compositores do Brasil, assim como Chico Buarque, surgiu com mais visibilidade no País por volta dos anos 60. Nos anos de 1970 fez parceria com Chico Buarque onde compôs diversas músicas, entre elas, Atrás da Porta interpretada por Elis Regina em 1973. Compuseram a letra durante a ditadura militar no Brasil, tendo duas versões para o verso 9 “(...) No teu peito (...)”, interpretada por Elis ou “(...) Nos teus pelos (...)”, sendo esta versão a original de composição e vetada pela censura da época.
Na letra da música pode-se notar a musicalidade , mesmo que sem a interpretação da cantora, pois as rimas terminadas em cada verso, exemplificada nos versos de 3 a 7, respectivamente: “(...) acreditei (...)”, “(...) estranhei (...)”, “(...) debrucei (...)”, “(...) duvidei (...)” e “(...) arranhei (...)”, fazem com que a leitura se torne mais melódica e harmoniosa.
Nessa constata-se o amor possível, natural e espontâneo do eu-lírico no verso 21 “(...) Pra provar que inda sou tua (...)”. Observa-se, também, o sofrimento amoroso do poeta na música, mesmo que esse sentimento seja retribuído, notado nos versos 2 e 3: “(...) E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei (...)”. Portanto, as características apresentadas em Atrás da Porta são as mesmas da Cantiga de Amigo do Trovadorismo.
Mesmo pertencendo a movimentos literários, culturas e séculos distintos, as duas obras apresentadas poderiam ser atribuídas como Cantigas líricas do Trovadorismo, mesmo que a literatura tenha passado por diversas modificações e estilos distintos, nota-se a influência, claramente, na obra da atualidade.
Percebe-se então, através da pesquisa que, o eu-lírico de ambos os poemas sofrem pelo mesmo sentimento: O Amor, daí a classificação de Cantigas líricas. Ainda que o eu-lírico da canção “tenha vivido”, por algum momento, a existência deste sentimento perdido, enquanto o eu-lírico do poema trovadoresco nunca viverá o amor que ele sente pela mulher amada.
Fica esclarecida a importância de estudar atualmente nos cursos de Letras, movimentos literários passados, pois tais textos, mostram que os poetas e compositores utilizam recursos identificados nos séculos anteriores para compor suas obras.


Anexo

Vocabulário do poema: Un tal ome sei eu, ai ben-talhada.

ome: homem.
ben-talhada: bem-feita, formosa.
sa: sua.
seed'en nembrada: não vos esqueçais, lembra-vos.
preto: perto.
venha-vos em mente: tende em mente, lembra-vos.
aquest'oíde: ouvi isto; a expressão tem função de chamar a atenção da mulher.
morr': morre.
vo-lo en partide: vós o afastais de vós, no sentgido de "deixá-lo partir", "afastar-se".
non xe vos bride: não vos esqueçais dele.




Referências de pesquisa

a) Livros:

Nicola, José de. Literatura Brasileira: das origens aos nossos dias. São Paulo: Scipione, 2000.
Moisés, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2004.

b) Sites:

www.vagalume.com.br (acesso em: 05 de abril de 2010);
www.escolaweb.com.br (acesso em: 05 de abril de 2010).

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